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domingo, 20 de janeiro de 2013

COLUNA NO GLOBO    Enviado por Míriam Leitão -
20.01.2013
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09h00m

Politização da energia

As chuvas vieram fortes em pontos certos e isso aliviou um pouco a tensão na área energética. Ainda é cedo, e só em abril se saberá se o país escapou do risco de racionamento. Se as termelétricas ficarem ligadas até julho, o custo será de R$ 7 bilhões. A politização da energia é o maior fator de risco ao suprimento. O governo está vendendo ao país a quimera da energia barata.
Se quisesse reduzir o custo, o governo diminuiria o peso dos impostos que representam quase a metade do preço da energia. As novas hidrelétricas da Amazônia têm um subsídio gigantesco não explicitado através de empréstimos baratos, garantias dadas pelo Tesouro, participação de estatais nos consórcios. Esses subsídios distorcem as comparações.
A economia de escala barateia novas formas de energia, como aconteceu com a eólica e está para acontecer com a solar. Mas é um erro prometer preços cadentes da energia como um todo e fazer disso plataforma política. Se não houver investimento, a energia ficará mais cara.
No debate, é natural que cada setor defenda a sua fonte de energia. Conversei longamente na semana passada com um executivo do setor que discorda fortemente da opção pelas hidrelétricas a fio d’água. O argumento dele é que é preciso fazer opção por energia firme.
— Sol não se tem o tempo todo, vento nem sempre venta, e se agregarmos a isso usinas sem reservatórios vamos ficar mais dependentes das termelétricas — argumenta.
A presidente da Abeeólica, Élbia Melo, disse que no Brasil, mais especificamente no interior da Bahia, está o melhor vento do mundo. Um vento que garante um fator de capacidade de 50%. No mundo, é 30%. Fator de capacidade é o quanto se pode gerar em média da potência total. A China instalou 18 mil megawatts em um único ano e já tem um parque de 55 mil. No Brasil, dobrou o potencial e caiu a um terço o preço, pela economia de escala.
O executivo que defende barragens na Amazônia como a melhor opção argumenta que a instalação de uma eólica exige três anos de estudo dos ventos. Élbia disse que, em compensação, em dois anos instala-se um parque. O Brasil tem hoje dois mil megawatts de energia eólica. Até 2017, terá 8,7 mil megawatts. Mas a falta de linhas de transmissão, além de impedir que parte da energia esteja no sistema, aumenta o custo. Por contrato, a empresa eólica é remunerada, mesmo não tendo a linha. O prejuízo já passa de R$ 400 milhões pelas usinas paradas.
Sérgio Benincá, da Kyocera Solar, conta que os preços dos painéis fotovoltaicos caíram no mundo inteiro nos últimos anos. No Brasil, houve a desvalorização cambial e os impostos são altíssimos. A Alemanha tem sete mil megawatts de energia solar instalada, mas o melhor sol da Alemanha é pior do que o nosso pior sol, que fica no Rio Grande do Sul.
O ideal é ter a matriz diversificada, com preferência por energias mais limpas. No caso das hidrelétricas na Amazônia, é preciso pôr na conta os custos ambientais, sociais, e o de trazer a energia do meio da floresta para os centros com linhões de até 2 mil quilômetros.
Há muito a fazer em termos de racionalização e economia do uso de energia. O governo não toca nesse tema porque tem medo de se enfraquecer no debate político que ele introduziu num assunto que deveria ser técnico e racional.
Entre os vários erros que o governo cometeu nos últimos anos está o de ter deixado a Chesf ser a responsável pela instalação de tanta linha de transmissão. Ela venceu os leilões, mas não conseguiu entregar. Muitas das linhas hoje do país estão velhas e aumentam o risco do sistema.

As chuvas podem nos socorrer este ano, mas o custo dos erros tem ficado cada vez maior.

By: Mirian Leitão.