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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

AVATAR !

Mensagem pertinente ao momento em que vivemos de incerteza sobre o futuro de nosso planeta, o filme "Avatar" impressiona por sua profundidade simbólica.
Os nativos do planeta "Pandora" são nossos índios da época colonial, que de certa forma o filme reconta projetando-a para o futuro na conquista espacial. Subjacente, há um apelo à salvação da Terra e por conseguinte do pouco de humanidade que ainda resta em cada um de nós, individualizados ao extremo neste capitalismo global que vivemos, predador de nossas almas. A redescoberta de nossa ligação com a mãe Terra e o reconhecimento de nossa maior riqueza, o conjunto, a totalidade da qual somos elementos complementares e dependentes, aparecem como tábua de salvação única.
O autor demonstra uma consciência enorme do espaço geográfico.
Claro, é uma obra de ficção, na história real, os índios perdem e são dizimados.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Para que Servem as Religiões.

Li um livro excelente intitulado “Papel Moeda” de Adam Smith, não o grande economista, pai do liberalismo, mas um jornalista econômico estadunidense. Editora Record (1981).
O autor trata de forma brilhante e até profética, da economia estadunidense toda baseada na especulação imobiliária, concordando com outros analistas que previam um dia a “bolha” estouraria e que, quando acontecesse, o sistema financeiro entraria em colapso de tal forma que “só haveria um banco”. A profecia de certa forma se cumpriu, a “bolha” especulativa estourou, os bancos de investimento quebraram e levaram consigo grandes bancos comerciais que, nos países ricos, foram sendo “comprados” pelos governos.
Mas o livro tem um enfoque mais abrangente que isso, e vai tratar da dependência energética dos Estados Unidos com relação ao Oriente Médio, como surgiu a OPEP e seu poder de sugar dólares americanos fato que levou os EUA a venderem armas para os governos daquela região do planeta a fim de recuperarem um pouco dessa imensa transferência de riqueza para os Xeques, Reis, Emires, Aiatolás. Claro que não foi o suficiente, além de criar grandes problemas na região, tais como grupos extremistas contrários aos interesses do Ocidente, agora fortemente armados e treinados, consequências estas que acompanhamos diariamente nos jornais atuais.
A transferência de riqueza foi e é imensa e evidentemente causou e causa mudanças no espaço geográfico dos países do Oriente Médio.
No capítulo nove, “A Conexão Saudita: o reino e o poder”, o autor traça um perfil do “Reino”, ou seja, a Arábia Saudita, onde descreve um país atrasado em termos capitalistas, uma sociedade tribal, sem telefone, ruas sem nome, casas sem número, um país sem parlamento, sem imprensa, sem consumismo. Sem consumismo?!!!!!!!!!!! Isso mesmo, sem o consumismo ocidental. Mas os ‘petrodólares’ entraram maciçamente, afinal O Reino possui um terço das reservas da OPEP. Riad, a capital, foi transformada, virou cidade global. “Fora da cidade original”, nos conta o texto, “tem estradas de seis pistas com iluminação a arco voltaico. Arquitetos texanos deram aos prédios públicos um estilo que é uma mistura do moderno com o arábico clássico”. O que não mudou foram as relações de poder: “O Reino é dirigido pelo Rei, a família real, o Alcorão, e um idioma inteiro de pressupostos culturais.”.
Eis onde quero chegar. O islamismo na Arábia Saudita é rígido e seus preceitos são preservados por uma polícia religiosa que patrulha os locais públicos, imprensa e canais de televisão são restritos, as notícias controladas. Ao povo comum resta a obediência e, embora haja uma certa revolta contra as notícias de corrupção no alto escalão de governo, todo o status quo é mantido. Lá a religião legitima os privilégios do rei exatamente como no ocidente antes da revolução burguesa, quando a ‘ética protestante’ passou a levar o povo a querer esses privilégios para si, enriquecendo assim os capitalistas que lhe vendem sonhos.
A fé foi apropriada aos interesses do poder terreno em todos os casos, serviu para manter o povo submisso e manso em favor de uma minoria que se apossou das riquezas: no passado ocidental, a nobreza e o próprio clero, no presente, pós-revolução burguesa, os burgueses e o clero protestante ou não a eles ligado. O Oriente Médio, porém, ainda vive um mix de nobreza e clero que detém quase todos os privilégios utilizando o jugo poderoso da religião. Em função disso Marx e Engels disseram: “a religião é o ópio do povo” e Nietzsche que o cristianismo é um disfarce para os fracassados. Não por acaso os governantes sauditas têm verdadeira ojeriza ao comunismo.
Não estou aqui fazendo apologia ao comunismo, nem mesmo condenando o cristianismo ou o islamismo, mas apenas observo como a religião foi usada para beneficiar as ‘elites’ não só no tempo, mas também no espaço.
Fico pensando se tudo poderia ser diferente. Se cada um de nós lutasse por viver com apenas o necessário, isso retiraria do rei, lá onde ele ainda existe, seus privilégios, pois forçaria uma distribuição mais justa da riqueza - o ideal socialista que até hoje só ficou na teoria, visto que quem sobe ao poder se distancia do operariado, começa a ‘mamar nas tetas do poder’ e a história se repete...- ao mesmo tempo não permitiria a acumulação capitalista, preservaria o meio ambiente, livraria a humanidade da fome e da miséria. Para que tudo isso se realizasse seria indubitavelmente necessária muita disciplina, demandaria um verdadeiro reaprendizado e muito, mais muito boa-vontade. Se as religiões aqui citadas se prestassem a essa revolução, isso lhes devolveria seu caráter libertador e as reaproximaria de Deus.

sábado, 4 de julho de 2009

VALE A PENA PENSAR SOBRE ...

"Se fosse possível reduzir a população do mundo inteiro em uma vila
de 100 pessoas, mantendo a proporção do povo existente agora no mundo,
tal vila seria composta de
57 asiáticos,
21 europeus,
14 americanos (Norte, Centro, Sul),
8 africanos.
52 seriam mulheres,
48 homens,
70 não-brancos,
30 brancos.
70 não-cristãos,
30 seriam cristãos.
89 seriam heterossexuais,
11 seriam homossexuais.
6 pessoas possuiriam 59% da riqueza do mundo inteiro e todos os
6 seriam dos EUA,
80 viveriam em casas inabitáveis,
70 seriam analfabetos,
50 sofreriam de desnutrição,
1 estaria para morrer,
1 estaria para nascer,
1 teria computador e
1 (sim, apenas 1) teria formação universitária (...)"
(Autor desconhecido - adaptado)

domingo, 1 de março de 2009


Complexo siderúrgico da ThyssenKrupp causa danos sociais e ambientais no RioNotícias - 12/11/2008
Autor: Por Gislene Lima

Se o jornalista Günter Wallraff fosse hoje reescrever seu “Ganz Unten” teria de migrar para o Brasil e se tornar um dos 10 mil operários de uma enorme obra de construção de um complexo siderúrgico no Rio de Janeiro. Só assim, ele poderia ver e sentir na própria pele os absurdos cometidos pela ThyssenKrupp Steel em parceria com a Companhia Vale do Rio Doce. Isso sem considerar a irresponsabilidade do Governo brasileiro em autorizar e financiar uma obra que só vem gerando danos sociais e ambientais ao País.

O megaprojeto está sendo erguido numa área de 9 km2 às margens da Baía de Sepetiba, no distrito de Santa Cruz, zona oeste do Rio e se chama CSA - Companhia Siderúrgica do Atlântico. Trata-se de um conglomerado industrial siderúrgico-portuário, que terá capacidade de produzir 5,5 milhões de toneladas de placas de aço/ano - tudo voltado à exportação (60% USA e 40% Alemanha). O projeto ainda contempla uma própria usina termoelétrica com capacidade para gerar 490MW de energia e um porto com dois terminais, um píer de 700m e uma ponte de acesso dentro do mar com 4 km de extensão. As obras começaram no início de 2006 e a empresa pretende operar já em dezembro de 2009.

A CSA é uma joint-venture entre a ThyssenKrupp (com 90% de participação) e a Vale (com os 10% restante) e tem investimento anunciado de 4,5 bilhões de euros. No entanto, o megaprojeto tem financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que já repassou 1 bilhão e 480 milhões de reais. Mas esse valor pode subir para até 18% do investimento total, porque foi aprovado pelo governo brasileiro como “Linha de Concorrência Internacional”. Além disso, a área do complexo foi totalmente doada pelo Governo do Estado do Rio, que ainda vai dar isenção de tributos estaduais por 12 anos. A empresa também não pagará impostos municipais por cinco anos. Economistas estimam em US$ 150 milhões todas as isenções juntas.

“Esse é o modelo de desenvolvimento do Brasil que nós sempre criticamos. Ou seja, o governo dá todas as formas possíveis de incetivo, faz financiamentos pelo BNDES a projetos vindo de fora, que não absorvem a mão-de-obra da região e causam danos irreversíveis ao meio ambiente e à comunidade local. O resultado são produtos semi-elaborados e de baixo custo, totalmente para exportação e que depois voltam ao Brasil como produtos transformados e com alto valor agregado. Ficamos com todos os custos sociais e ambientais, que são altíssimos”, avalia a economista do PACS (Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul) Karina Yoshie Martins Kato, que esteve em Berlim há poucas semanas numa palestra organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo e o FDCL.

Impactos ambientais e econômicos

A CSA é a primeira de um plano de três siderúrgicas a serem instaladas na mesma região com aval do governo federal. A planta localiza-se a uma distância de 100 km do centro do Rio, onde concentra-se 40% da população da cidade ou cerca de 6 milhões de habitantes.

Segundo a economista do PACS, cerca de 8.070 pescadores artesanais estão sofrendo impactos diretos com as obras de dragagem para aumentar a profundidade da Baía de Sepetiba e viabilizar a circulação de navios. É que o local, além de muito raso para abrigar um porto, tem cerca de três milhões de toneladas de metais pesados, como cádmio, zinco e arsênio, sedimentados no seu fundo. Eles vazaram ao longo de 20 anos do depósito de um produtora de zinco na região e que faliu. Com o tempo se acumularam no fundo da baía e agora estão sendo revolvidos com a dragagem, que contaminou águas, peixes e crustráceos e vem entupindo canais e rios com uma lama contaminada.

Biólogos da Federação de Pesca do Rio de Janeiro já atestaram a incidência de peixes deformados e doentes. Há risco iminente de doenças à população consumidora desse pescado. As dragas da obra vêm sugando ainda uma quantidade enorme de peixes, inclusive os que estão em época de defeso e procuram a baía para se reproduzir. “Os pescadores dizem que hoje passam o dia inteiro no mar para pescar 10 vezes menos que antes”, diz Karina Kato.

A atividade pesqueira, que sustenta um universo de 40 mil pessoas, não é a única afetada pelas obras da CSA. A região é uma área turística formada por ilhas, e famílias inteiras trabalham com barcos de passeios, pousadas e restaurantes. Além da contaminação nas águas da baía, o complexo siderúrgico vem destruindo toda mata da região Sepetiba II – declarada pelo governo estadual em 2004 como Área de Preservação Ambiental.

Audiência e licenciamento duvidosos

Outro fator polêmico da CSA é a ilegalidade da sua licença ambiental, que foi emitida pela Feema – órgão ambiental do Governo do Rio. Por se tratar de um projeto em zona costeira, segundo a lei 7.661 de 1988, ela só poderia ser autorizada por um órgão ambiental federal: o Ibama. Igualmente duvidosas foram as audiências públicas realizadas no processo de licenciamento da obra. A empresa levou pessoas de fora para apoiá-la nas reuniões. “Algumas revelaram ter recebido R$ 50 pela presença, outras comentavam que nem sabiam do que se tratava o evento”, relata Karina Kato.

A economista do PACS afirma que mais grave, porém, foram os subornos à autoridades públicas e lideranças de pescadores. “Um caso comprovado foi do líder de uma cooperativa com 1.800 pescadores, que assinou favorável ao projeto em nome da entidade e depois fugiu com os papéis, quando foi pressionado a explicar sua postura numa audiência”, diz ela.

Exploração de mão-de-obra chinesa

O complexo siderúrgico obteve simpatia de parte da comunidade local, iludida com as promessas de contratação de 18 mil operários na fase da construção e 3.500 trabalhadores para a operação da indústria. Estima-se que hoje mais de 10 mil homens circulam pelos canteiros da obra diariamente. Mas eles não são mão-de-obra local. Ao contrário. A empresa está contratando migrantes nordestinos e declara ter importado cerca de 900 chineses para trabalhar como pedreiros na obra. O governo brasileiro autorizou a contratação de, no máximo, 600 operários da China - embora o pedido da empresa fosse de 4.000 homens. Eles fariam parte de um contrato firmado, no valor de US$ 425 milhões, entre a Thyssen Krupp e a estatal de Pequim: Citic, para a venda de equipamentos e de mão-de-obra barata.

No Brasil, para que uma construção tenha mão-de-obra importada e não qualificada é preciso antes obter autorização expressa do CREA - Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia. A CSA não só ignorou esse procedimento, como foi flagrada por fiscais do Ministério Público do Trabalho, que em setembro último, encontraram 120 chineses sem registro e sem contrato no seu canteiro de obras. Uma ação na Justiça brasileira ordena o fim da contratação de chineses na obra e condena a ThyssenKrupp a pagar R$ 40 milhões por danos morais coletivos.

Milícias, morte e acidentes

A postura mais polêmica da CSA, no entanto, são indícios de vínculo da empresa com grupos paramilitares (formados por ex-policiais e matadores de aluguel) que estariam fazendo a segurança do complexo siderúrgico. Ambientalistas afirmam que o uso de milícias seria para inibir investigações sobre mortes de pescadores e operários ou acidentes de trabalho. Mas sobretudo, para intimar os movimentos sociais da região que resistem à implantação do complexo siderúrgico.

A equipe do PACS, que desde 2007 vem apoiando os pescadores e as comunidades locais, assegura que esse é o tema mais delicado de se denunciar, já que põe em risco direto a população que vive na região. “Os paramilitares intimidam e criminalizam toda e qualquer manifestação que se opõe à obra. Eles são violentos e saem batendo nas pessoas. Temos conhecimento de ameaças anônimas por telefone e de boatos de morte e ocultação de cadávares, inclusive publicadas em jornais da região”, observa Karina Kato.

Segundo a economista, os pescadores são, muitas vezes, impedidos de sair ao mar para trabalhar, porque a empresa instala equipamentos dentro dos rios e canais, fechando as possibilidades de acesso a pequenos barcos. Além disso, rebocadores da empresa estariam circulando em alta velocidade por esses rios e canais, destruindo material de pesca e ameaçando a segurança de pescadores em atividade.

A morte estúpida do pescador Carlos Alberto Marques no início de 2007 está sendo investigada como uma da atuações das milícias na região. Segundo Karina Kato, ele e um colega encostaram no Canal de São Francisco para dormir um pouco e depois voltar ao mar. O barco estava todo sinalizado, mesmo assim os pescadores foram surpreendidos por um rebocador em alta velocidade e sem sinalização, que os jogou na água depois de um violento choque. Carlos Alberto morreu no acidente e seu corpo só foi encontrado depois de manifestações da comunidade contra a empresa, que se recusava a autorizar busca na sua área. Seu colega foi internado no hospital como vítima de acidente de trabalho e o barco só foi recuperado depois que o advogado dos pescadores acionou a empresa.

Suspeitas de morte por acidente de trabalho e violação de direitos trabalhistas nas dependências do complexo, também levaram o Ministério Público a instaurar um inquérito criminal para apurar denúncias contra a CSA. Em julho deste ano, a Procuradoria do Trabalho interditou a obra por irregularidades, como falta de equipamentos pessoais de segurança e de condições de prevenção e segurança no trabalho. A reincidência das mesmas condições algumas semanas depois, obrigou a CSA a assinar um Termo de Ajuste de Conduta – TAC, sob pena de multas.

Estratégias de oposição

Os pescadores da Baía de Sepetiba têm seis ações cívis em andamento na Justiça estadual contra a CSA. Eles exigem indenização de mais de R$ 300 milhões pelos impactos provocados à pesca. Mas não têm muita chance de vitória se o inquérito do Ministério Público Federal, com mais de 6.000 páginas, não virar uma ação. Para isso, o PACS planeja agregar dados técnicos, científicos e jurídicos ao processo.

No campo legal, a ONG está contatando juristas com experiência em ações contra transnacionais e já coversou com a a diretoria da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil). Na área técnica e da construção, o PACS quer obter análises do CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) e do Conselho Regional de Economistas. Já no campo médico-científico, os ativistas da ONG se reuniram com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, que vão desenvolver um estudo sobre os impactos do polo siderúrgico na saúde da população do Rio de Janeiro. Análise do gênero também foi solicitada ao Sindicato dos Médicos do RJ.

No plano internacional, os pescadores denunciaram o caso ao Tribunal Permanente dos Povos, em Lima, com grande repercussão. O objetivo agora é buscar apoio dos movimentos sociais alemães na divulgação das irregularidades dessa obra e, fazer uma denúncia formal no Parlamento Europeu. Para isso, o pessoal do PACS planeja trazer em 2009 à Alemanha, pelo menos dois pescadores, um tradutor e um ambientalistas. A iniciativa já conta com apoio da FDCL, Rettet den Regenwald, KoBra e Urgewald.

Karina Kato, que já conversou com a deputada Monika Knoche (Die Linke), acha que a opinião pública alemã precisa tomar conhecimento e cobrar um posicionamento da gigante do aço. “Supeitamos que a Thyssen Krupp tenha obtido dinheiro público para investir nesse megaprojeto e a população alemã tem direito de saber onde seu dinheiro está sendo aplicado e e quais condições”, conclui ela.


FSM 2009 - Empresas transnacionais brasileiras: um debate necessárioRLS e Parceiros - 4/2/2009
Autor: Ana Garcia

O Brasil está em terceiro lugar no ranking de empresas de países “emergentes” com potencial para desafiar empresas transnacionais estadounidenses e européias. É 14 o número de empresas com origem no Brasil entre as 100 maiores do mundo, somente atrás de empresas da China e da Índia. Estas 100 empresas juntas somam US$ 1,5 trilhões. Entre as brasileiras estão Petrobrás, Vale e as grandes construtoras. Somente a empresa Camargo Corrêa dobrou de tamanho entre 2005 e 2007, somando US$ 6,4 bilhões 2007[1]. Vemos, assim, que as empresas com origem no Brasil não só crescem, mas se internacionalizam e ganham mais importância na política externa brasileira, tornando-se também agentes de conflitos entre Estados. Entre os mais emblemáticos estão os casos do conflito entre Brasil e Bolívia, por conta da nacionalização do petróleo naquele país em 2006, e entre Brasil e Equador no último ano, devido aos problemas causados pela construtora Odebrecht na construção da hidrelétrica San Francisco.

De modo geral, as transnacionais são um dos principais motores do desenvolvimento capitalista. Elas têm um papel central na exploração e transferência das riquezas do sul para o norte, em inovações tecnológicas para seu lucro - mas representadas como inovações para toda a sociedade -, e na transformação de países em potências hegemônicas ao longo da história do capitalismo. Por trás de uma grande empresa há sempre um Estado forte, que a financia e estrutura o campo jurídico e político para que ela atue. E por trás de um Estado hegemônico há sempre empresas transnacionais que atuam dentro e fora do país, levando sua marca e criando sua imagem junto à imagem do país potência. Nestes casos a relação entre empresa e Estado é direta, e se explicita com a constante penetração das empresas dentro do aparelho estatal (em conselhos, ministérios ou pela via informal de amizades e lobby). Assim, elas influenciam políticas públicas, tanto para serem beneficiadas por grandes obras, quanto para receberem créditos e incentivos fiscais[2]. Esta mescla entre capital e Estado é característica da hegemonia capitalista, onde os interesses da classe burguesa são apresentados como interesses de todos.

Foi nesse esquema que atuaram as grandes empresas européias e estadunidenses ao longo do último século. E é dentro deste modelo capitalista que o Brasil está buscando se desenvolver. Suas grandes empresas têm sido tratadas como motor do crescimento econômico e do desenvolvimento nacional. Além disso, elas têm sido as grandes beneficiadas de projetos de integração regional baseados na infra-estrutura. Uma melhoria na infra-estrutura entre os países da América do Sul pode ter a vantagem de facilitar a comunicação e as vias de circulação entre os povos da região. Entretanto, grandes projetos, especialmente no marco da IIRSA, têm sido conduzidos prioritariamente para exploração de recursos naturais e para o aprofundamento do modelo exportador. Assim, a integração da infra-estrutura tem levado, em muitos casos, à desintegração de territórios dos povos originais, populações locais e do meio ambiente.

O Instituto Rosa Luxemburg Stiftung promoveu, juntamente com organizações e movimentos sociais brasileiros - MAB, Rede Social Justiça e Direitos Humanos, PACS, Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, Rede Justiça Ambiental e Rede Jubileu Sul –, uma oficina no Fórum Social Mundial de Belém para debater a atuação das empresas transnacionais brasileiras na América do Sul. O objetivo desta oficina foi abrir um espaço de questionamento e debate sobre o modelo de desenvolvimento ao qual o Brasil está submetido, ao mesmo tempo em que submete seus vizinhos. Que tipo de crescimento e desenvolvimento está sendo criado? Quais as vias de desenvolvimento que estamos seguindo? Quem está pagando por ele? E qual desenvolvimento queremos para nós, povos do Brasil e do continente, e como chegamos a ele? Quem é o Brasil hoje na América do Sul, e qual o papel das empresas na política externa do Brasil?

Nosso objetivo com esta oficina foi de informar de maneira substantiva sobre a atuação das empresas transnacionais brasileiras a partir de depoimentos de pessoas e organizações diretamente afetadas dos países onde atuam, relacionando assim a atuação dessas empresas dentro e fora do Brasil, e abrindo espaço para articulação das organizações e movimentos brasileiros e dos demais países. Portanto, a oficina foi construída de forma tal que a mesa foi composta somente por representantes de organizações de outros países, que lutam contra essas empresas ou que são diretamente afetados por elas. Para falar sobre a atuação da Petrobrás na Bolívia e no Equador, contamos com a participação de Alexandra Almeida (Accion Ecológica, Equador) e Patrícia Molina (Fobomabe, Bolívia); para falar do caso Odebrecht no Equador, tivemos Natalia Landivar, do FIAN; para debater a questão da renegociação e da auditoria da dívida de Itaipu, contamos com Constancio Mendonza (Frente Social y Popular, Paraguai); para fazer a apresentação sobre a entrada do etanol na América Central, principalmente através da diversificação da produção da Petrobrás, tivemos Andrés Leon Araya, da Costa Rica. Luis Novoa falou sobre o papel central do BNDES na expansão destas empresas para a América do Sul, destinando recursos especiais para isto, e em muitos casos desconsiderando critérios ambientais, sociais e trabalhistas. Por fim, a professora Ana Esther Ceceña (UNAM e Observatório Latinoamericano de Geopolítica) fez uma exposição sobre a IIRSA, a iniciativa de integração regional para grandes obras de infra-estrutura, que representa o marco político através do qual as empresas têm se expandido, relacionando-se diretamente com políticas de integração regional. As organizações e movimentos brasileiros ficaram no público e intervieram na discussão.

Tivemos um debate acalorado, pois há claramente posicionamentos diferentes dentro da esquerda brasileira. Principalmente na questão da Petrobrás e da renegociação de Itaipu, temos que debater e desconstruir discursos nacionalistas e desenvolvimentistas na nossa sociedade. Podemos afirmar que temos uma batalha em duas frentes: de um lado, o enfrentamento direto com as empresas, especialmente projetos destruidores dos meios de vida de milhares de pessoas, do meio ambiente, absorvedoras de créditos públicos e, desta forma, da renda da população brasileira; de outro, a luta dentro da própria sociedade brasileira pela construção de um novo senso comum. E este novo senso comum tem como objetivo redirecionar e substituir a idéia de que precisamos nos “desenvolver” no mesmo modelo europeu e estadunidense, crescendo sobre os nossos vizinhos a partir de um projeto de “Brasil potência”, difundida mais fortemente a partir dos governos militares.

Percebemos que, para conseguirmos ganhar esta batalha ideológica, temos que trabalhar dentro do imaginário popular, a partir do senso comum já estabelecido, com o objetivo de construir um novo. É importante notarmos que este senso comum já estabelecido mescla a identidade nacional com o papel das empresas. As empresas se colocam como representantes do Brasil no exterior, imagem reforçada pela mídia e pelas declarações de representantes do governo brasileiro. Os interesses das empresas são representados como interesse nacional, de todos os brasileiros. De maneira emblemática, a empresa Odebrecht se autodenominou recentemente “construtora da integração regional” em anúncios públicos, colocando-se como instrumento de realização dos interesses dos povos e dos países, na tentativa de, ao mesmo tempo, “limpar” sua imagem deteriorada por problemas graves em grandes obras nos últimos anos[3].

Como desconstruir este mito? Como desvincular nossa identidade como povos da identidade corporativa de uma empresa como, por exemplo, a Petrobrás, que representa um passado de luta pela soberania sobre nossos recursos, mas que hoje explora os bens e recursos naturais dos povos da região? O que acontece com os lucros que estas empresas fazem no exterior, ou seja, de que maneira eles se revertem para o Brasil? Estas questões remeteram, no nosso debate, ao papel da chamada “responsabilidade social corporativa”, um complexo mecanismo que mistura interesse público e privado, funções estatais exercidas por empresas, e de certa maneira, “benevolência” e marketing. A própria Petrobrás financiou boa parte do Fórum Social Mundial, e as denúncias sobre seus abusos e violações na Bolívia e no Equador nos levaram a um forte sentimento de revolta e embaraço por estarmos num evento da “sociedade civil” financiado pela empresa. O financiamento da Petrobrás à cultura brasileira, como o cinema nacional, nos impõe um grande quebra-cabeça a desvendar entre identidade nacional-política e a externa- com interesses privados.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sementes do poder
por Christina Palmeira, de Paris

Jornalista francesa narra, em livro e documentário, os desastres ambientais e sociais causados pela Monsanto. E sua influência sobre o governo dos Estados Unidos.
A Monsanto produz 90% dos transgênicos plantados no mundo e é líder no mercado de sementes. Tal hegemonia coloca a multinacional norte-americana no centro do debate sobre os benefícios e os riscos do uso de grãos geneticamente modificados. Para os defensores da manipulação dos genes, a Monsanto representa o futuro promissor da “revolução verde”. Para ecologistas e movimentos sociais ligados a pequenos agricultores, a empresa é a encarnação do mal.Esse último grupo acaba de ganhar um reforço a seus argumentos. Resultados de um trabalho de três anos de investigação da jornalista francesa Marie-Monique Robin, o livro Le Monde Selon Monsanto (O Mundo Segundo a Monsanto) e o documentário homônimo são um libelo contra os produtos e o lobby da multinacional. O trabalho cataloga ações da Monsanto para divulgar estudos científicos duvidosos de apoio às suas pesquisas e produtos, a exemplo do que fez por muitos anos a indústria do tabaco, relaciona a expansão dos grãos da empresa com suicídios de agricultores na Índia, rememora casos de contaminação pelo produto químico PCB e detalha as relações políticas da companhia que permitiram a liberação do plantio de transgênicos nos Estados Unidos. Em 2007, havia mais de 100 milhões de hectares plantados com sementes geneticamente modificadas, metade nos EUA e o restante em países emergentes como a Argentina, a China e o Brasil.
Marie-Monique Robin, renomada jornalista investigativa com 25 anos de experiência, traz depoimentos inéditos de cientistas, políticos e advogados. A obra esmiúça as relações políticas da multinacional com o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001), e com o gabinete do ex-premier britânico Tony Blair. Entre as fontes estão ex-integrantes da Food and Drug Administration (FDA), a agência responsável pela liberação de alimentos e medicamentos nos EUA.
A repórter, filha de agricultores, viajou à Grã-Bretanha, Índia, México, Paraguai, Vietnã, Noruega e Itália para fazer as entrevistas. Antes, fez um profundo levantamento na internet e baseou sua investigação em documentos on-line para evitar possíveis processos movidos pela Monsanto. A empresa não deu entrevista à jornalista, mas, há poucas semanas, durante uma apresentação em Paris de outro documentário de Robin, uma funcionária da multinacional apareceu e avisou que a companhia seguia seus passos. Detalhe: a sede da Monsanto fica em Lyon, distante 465 quilômetros da capital francesa.
Procurada por CartaCapital, a Monsanto recusou-se a comentar as acusações no livro. Uma assessora sugeriu uma visita ao site da Associação Francesa de Informação Científica, onde há artigos de cientistas com críticas ao livro de Robin. A revista, devidamente autorizada pelo autor, reproduz na página 11 trechos do artigo de um desses cientistas, Marcel Kuntz, diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Grenoble.Não é de hoje, mostra o livro, que herbicidas da Monsanto causam problemas ambientais e sociais. Robin narra a história de um processo movido por moradores da pequena Anniston, no Sul dos EUA, contra a multinacional, dona de uma fábrica de PCB fechada em 1971. Conhecida no Brasil como Ascarel, a substância tóxica era usada na fabricação de transformadores e entrava na composição da tinta usada na pintura dos cascos das embarcações. Aqui foi proibida em 1981.
A Monsanto, relata a repórter, sabia dos efeitos perversos do produto desde 1937. Mas manteve a fábrica em funcionamento por mais 34 anos. Em 2002, após sete anos de briga, os moradores de Anniston ganharam uma indenização de 700 milhões de dólares. Na cidade, com menos de 20 mil habitantes, foram registrados 450 casos de crianças com uma doença motora cerebral, além de dezenas de mortes provocadas pela contaminação com o PCB. Há 42 anos, a própria Monsanto realizou um estudo com a água de Anniston: os peixes morreram em três minutos cuspindo sangue.
Robin alerta que os tentáculos da Monsanto atingem até a Casa Branca. A influência remonta aos tempos da Segunda Guerra Mundial e ao período da chamada Guerra Fria. Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa do governo Bush júnior, dirigiu a divisão farmacêutica da companhia. A multinacional manteve ainda uma parceria com os militares. Em 1942, o diretor Charles Thomas e a empresa ingressaram no Projeto Manhattan, que resultou na produção da bomba atômica. O executivo encerrou a carreira na presidência da Monsanto (1951-1960). Na Guerra do Vietnã (1959-1975), a empresa fornecia o agente laranja, cujos efeitos duram até hoje. A jornalista visitou o Museu dos Horrores da Dioxina, em Ho Chi Minh (antiga Saigon), onde se podem ver os efeitos do produto sobre fetos e recém-nascidos.Alan Gibson, vice-presidente da associação dos veteranos norte-americanos da Guerra do Vietnã, falou à autora dos efeitos do agente laranja: “Um dia, estava lavando os pés e um pedaço de osso ficou na minha mão”.
Boa parte do trabalho de Robin é dedicada a narrar as pressões sofridas por pesquisadores e funcionários de órgãos públicos que decidiram denunciar os efeitos dos produtos da empresa. É o exemplo de Cate Jenkis, química da EPA, a agência ambiental dos Estados Unidos.
Em 1990, Jenkis fez um relatório sobre os efeitos da dioxina, o que lhe valeu a transferência para um posto burocrático. Graças à denúncia da pesquisadora, a lei americana mudou e passou a conceder auxílio a ex-combatentes do Vietnã. Após longa batalha judicial, Jenkis foi reintegrada ao antigo posto.
Há também o relato de Richard Burroughs, funcionário da FDA encarregado de avaliar o hormônio de crescimento bovino da Monsanto. Burroughs diz ter comprovado os efeitos nocivos do hormônio para a saúde de homens e animais e constatou que, com o gado debilitado, os pecuaristas usavam altas doses de antibióticos. Resultado: o leite acabava contaminado. Burroughs, conta a jornalista, foi demitido. Mas um estudo recente revela que a taxa de câncer no seio entre as norte-americanas com mais de 50 anos cresceu 55,3% entre 1994, ano do lançamento do hormônio nos Estados Unidos, e 2002.
Segundo Robin, a liberação das sementes transgênicas nos Estados Unidos foi resultado do forte lobby da empresa na Casa Branca, principalmente durante o governo Clinton. Uma das “coincidências”: quem elaborou, na FDA, a regulamentação dos grãos geneticamente modificados foi Michael Taylor, que nos anos 90 fora um dos vice-presidentes da Monsanto.
A repórter se detém sobre o “princípio da equivalência em substância”, conceito fundamental para regulamentação dos transgênicos em todo o mundo. A fórmula estabelece que os componentes dos alimentos de uma planta transgênica serão os mesmos ou similares aos encontrados nos alimentos “convencionais”. Robin encontrou-se com Dan Glickman, que foi secretário de Estado da Agricultura do governo Clinton, responsável pela autorização dos transgênicos nos EUA. Glickman confessou, em 2006, ter mudado de posição e admitiu ter sido pressionado após sugerir que as companhias realizassem testes suplementares sobre os transgênicos. As críticas vieram dos colegas da área de comércio exterior.
Houve pressões, segundo o livro, também no Reino Unido. O cientista Arpad Pusztai, funcionário do Instituto Rowett, um dos mais renomados da Grã-Bretanha, teria sido punido após divulgar resultados controversos sobre alimentos transgênicos. Em 1998, Pusztai deu uma entrevista à rede de tevê BBC. Perguntado se comeria batatas transgênicas, disparou: “Não. Como um cientista que trabalha ativamente neste setor, considero que não é justo tomar os cidadãos britânicos por cobaias”. Após a entrevista, o contrato de Pusztai foi suspenso, sua equipe dissolvida, os documentos e computadores confiscados. Pusztai também foi proibido de falar com a imprensa. No artigo reproduzido à página 11, Kuntz afirma que o cientista perdeu o emprego por não apresentar resultados consistentes que embasassem as declarações à imprensa.
Pusztai afirma que só compreendeu a situação, em 1999, ao saber que assessores do governo britânico haviam ligado para a direção do instituto no dia da sua demissão. Em 2003, Robert Orsko, ex-integrante do Instituto Rowett, teria confirmado que a “Monsanto tinha ligado para Bill Clinton, que, em seguida, ligou para Tony Blair”. E assim o cientista perdeu o emprego.Nas viagens por países emergentes, Robin colheu histórias de falta de controle no plantio de transgênicos e prejuízos a pequenos agricultores. No México, na Argentina e no Brasil, plantações de soja e milho convencionais acabaram contaminadas por transgênicos, o que forçou, como no caso brasileiro, a liberação do uso das sementes da Monsanto (que fatura com os royalties).
De acordo com a jornalista, o uso da soja Roundup Ready (RR), muito utilizada no Brasil e na Argentina, acrescenta outro ganho à Monsanto, ao provocar o aumento do uso do herbicida Roundup. Na era pré-RR, a Argentina consumia 1 milhão de litros de glifosato, volume que saltou para 150 milhões em 2005. De lá para cá, a empresa suprimiu os descontos na comercialização do pesticida, aumentando seus lucros.
Um dos ícones do drama social dos transgênicos, diz o livro, é a Índia. Entre junho de 2005 (data da introdução do algodão transgênico Bt no estado indiano de Maharashtra) e dezembro de 2006, 1.280 agricultores se mataram. Um suicídio a cada oito horas. A maioria por não conseguir bancar os custos com o plantio de grãos geneticamente modificados.Robin relata a tragédia desses agricultores, que, durante séculos, semearam seus campos e agora se vêm às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas, num círculo vicioso que termina em muitos casos na ingestão de um frasco de Roundup.A jornalista descreve ainda o que diz ser o poder da Monsanto sobre a mídia internacional. Cita, entre outros, os casos dos jornalistas norte-americanos Jane Akre e Steve Wilson, duramente sancionados por terem realizado, em 1996, um documentário sobre o hormônio do crescimento. No país da democracia, a dupla se transformou em símbolo da censura.
Os cientistas, conta o livro, são frequentemente “cooptados” pela gigante norte-americana. Entre os “vendidos” está o renomado cancerologista Richard Doll, reconhecido por trabalhos que auxiliaram no combate à indústria do tabaco. Doll faleceu em 2005. No ano seguinte, o jornal britânico The Guardian revelou que durante 20 anos o pesquisador trabalhou para a Monsanto. Sua tarefa, com remuneração diária de 1,5 mil dólares, era a de redigir artigos provando que o meio ambiente tem uma função limitada na progressão das doenças. Foi um intenso arquiteto do “mundo mágico” da Monsanto.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

TESE DE MESTRADO NA USP por um PSICÓLOGO

'O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro.
Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.
Plínio Delphino, Diário de São Paulo.
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa. Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:
'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz. No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha Caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a Caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: 'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa Caneca?' E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão. E quando você volta para casa, para seu mundo real? Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, frequento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.

*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!

Respeito: passe adiante!

sábado, 17 de janeiro de 2009

A Divisão Territorial do Trabalho.

Quando a sociedade humana começa a interferir na paisagem natural modificando-a de acordo com suas necessidades e não mais apenas aproveitando o que esta lhe oferecia, criando outros gêneros de vida além do extrativo, tais como o pastoril e o agrícola, começa a haver a fixação desta sociedade em determinados locais que lhes eram favoráveis.
Mas a divisão do trabalho só surgirá quando aqueles que produzem, sentindo-se ameaçados por invasores que vinham em busca da produção e das boas condições existentes no local, solo fértil, água potável entre outras, concordaram em produzir além de suas necessidades de sobrevivência para que outros se encarregassem da proteção e, sentindo-se impotentes contra a fúria da natureza, que, de tempos em tempos, lhes ceifava vidas e lhes destruía ou impedia a produção de alimentos, acharam justo que uma parte deste excedente de produção fosse destinada a alguns que lidassem apenas com o culto aos deuses.
A cidade surge quando os “soldados” se reúnem em fortificações e os religiosos em templos e mosteiros, ao redor dos quais outras habitações, a dos servos especializados, que igualmente deixaram de ser produtores diretos, são edificadas.
Com a instituição da propriedade privada, até então tudo era apropriado em comum, consolidam-se as classes sociais e a luta de classes, que, por sua vez, faz surgir o Estado cuja função é a de atenuar o choque entre ricos e pobres, protegendo o direito à propriedade.
Nesse ínterim, a cidade diferencia-se enormemente do campo, conforme Singer (1978):

A cidade não inventa o comércio, mas muda-lhe o caráter, transformando-o de mero escambo irregular de excedentes agrícolas em intercâmbio regular de bens de luxo, em geral manufaturados. Com a cidade surge a produção regular e especializada de bens mais sofisticados (amuletos, jóias, armas) de cujo intercâmbio generalizado se destaca uma mercadoria que, pouco a pouco, se transforma em equivalente geral de todas as outras, tornando-se moeda, e é a troca monetária que finalmente torna possível a ampliação da divisão social do trabalho...
...A constituição da cidade é, ao mesmo tempo, uma inovação na técnica de dominação e na organização da produção.

As novas técnicas criadas pela cidade, tais como a roda, diminuem distâncias, dominam outros territórios antes impróprios à produção (drenagem de pântanos, irrigação de terras secas etc.) e impõem modas de vestuário, despersonalizando o campo para torná-lo dependente dos produtos manufaturados.
Moreira (1998) faz referência ao surgimento dos três modos de produção, que, nesta transição, aglutinam os gêneros de vida:

· Modo de produção asiático: comunidades de aldeia circundadas pelos campos, dominadas por uma comunidade superior, em geral com uma cidade central.
· Modo escravista: latifúndios no campo, poder centralizado fortemente na elite urbana.
· Modo feudal: paisagem atomizada e celularmente arrumada em anéis concêntricos do feudo, cada anel diferenciando-se do outro por sua atividade de produção específica (pomares, cereais, gado comunitário, reserva florestal, na ordem do afastamento da aldeia central), o conjunto compondo o domínio territorial inconteste do senhor
.

A partir do momento em que o excedente de produção é apropriado pela elite urbana, não mais apenas como valor de uso, subsistência, mas como valor de troca, mercadoria, a cidade transforma-se em centro de produção, surge uma nova classe de “produtores urbanos”, outrora trabalhadores rurais, que será explorada por uma nova classe dominante que acumula “riqueza móvel”, os comerciantes. Segundo Singer (1978):

Nesta fase, a cidade deixa de ser meramente a sede da antiga classe dominante para tornar-se o centro de uma nova classe rival de mercadores, usurários, especuladores, coletores de impostos etc. (...) Tudo isso colocou pressupostos sociais e econômicos que possibilitaram um notável avanço das forças produtivas.


A necessidade cada vez maior de novos mercados força a união de várias cidades-estado formando impérios, no interior dos quais surgirá a divisão regional do trabalho devido à criação de especializações produtivas em cada local, as quais nascem interdependentes entre si de modo a manter a unidade do território.
Com a acumulação de capital e com os avanços técnicos, surge a primeira revolução industrial que irá redefinir a divisão territorial do trabalho, atraindo o camponês para a cidade, gerando um verdadeiro esvaziamento do campo.
A imigração do campo para a cidade desliga o camponês de seu meio de produção, a terra, enquanto, simultaneamente, a técnica impõe ao artesão novos meios de produção mais sofisticados, dos quais ele não é mais o proprietário. Ambos são obrigados a alienar ou o fruto de seu trabalho, ou sua força de trabalho.
Segundo Moreira (1998):

A divisão territorial do trabalho é o esqueleto dessa arrumação do espaço industrial (...) aprofundando sua distinção pela diferença funcional. Doravante, campo é sinônimo de agricultura e pecuária. Fragmentação em múltiplos espaços especializados e diversificados de produção, que elevam a produtividade agrícola, liberam excedentes para a cidade e diminuem rapidamente sua população. Cidade é sinônimo de centro exclusivo da produção industrial e prestação de serviços. Ponto destacado na paisagem do território para onde e de onde fluem as linhas de comunicação e transporte.

Ainda segundo o autor, logo a indústria transporá para o plano mundial essa diferenciação cidade-campo, onde a cidade serão os países desenvolvidos e o campo os subdesenvolvidos, mas isso já é assunto para um próximo artigo, A Divisão Internacional do Trabalho.





Bibliografia.

Moreira, Ruy. O Tempo e a Forma (A sociedade e suas formas de espaço no tempo) in: Ciência Geográfica – Bauru IV Janeiro/Abril, 1998.)

Singer, Paul. À Guisa de Introdução: urbanização e classes sociais, in: Economia Política da Urbanização. São Paulo. Brasiliense, 1978, 5ª. Ed.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Leitura do Mundo.

Aprendi que é preciso paciência;
que é preciso dar tempo ao tempo e
esperar que as sementes germinem;
que de troncos aparentemente mortos, brotam folhas.
Aprendi que tudo está relacionado;
que uma coisa faz parte da outra;
que nada está isolado do conjunto;
que a Providência a tudo alcança;
que o que parece tragédia é reconstrução;
que os solos mais férteis e prenhes de vida nascem da lava vulcânica;
que a harmonia sobrevive à sanha dos homens e constantemente lhes impõe lições;
que as pessoas são diferentes, muito diferentes, umas das outras e que esse é o natural;
que nada está estático, pois até as rochas estão em movimento;
que não existe o feio, a não ser na concepção humana,
que a morte é o início da vida nova e que portanto não existe um final que não seja relativo;
que o mais perfeito sitema de dominação sempre deixa brechas,
que a vida é muito forte e flores nascem nas rachaduras do asfalto.
Aprendi que é sempre bom revermos aquilo que estamos cansados de rever
pois cada vez mais estaremos habilitados a enxergar o novo que há em nós.