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domingo, 21 de fevereiro de 2010

A Vingança da Miséria.


No Brasil das últimas décadas,
a miséria teve diversas caras.
Houve um tempo em que, romântica, ela batia à
nossa porta. Pedia-nos um prato de comida. Algumas
vezes, suplicava por uma roupinha velha.
Conhecíamos os nossos mendigos. Cabiam nos
dedos de uma das mãos. Eram parte da vizinhança.
Ao alimentá-los e vesti-los, aliviávamos nossas consciências.
Dormíamos o sono dos justos.
A urbanização do Brasil deu à miséria certa
impessoalidade. Ela passou a apresentar-se como um
elemento da paisagem, algo para ser visto pela janelinha
do carro, ora esparramada sobre a calçada, ora
refugiada sob o viaduto.
A modernidade trouxe novas formas de contato
com a riqueza. Logo a miséria estava batendo, suja,
esfarrapada, no vidro de nosso carro.
Os semáforos ganharam uma inesperada função
social. Passamos a exercitar nossa infinita bondade
pingando esmolas em mãos rotas. Continuávamos de
bem com nossos travesseiros.
Com o tempo, a miséria conquistou os tubos de
imagem dos aparelhos de TV. Aos poucos, foi perdendo
a docilidade. A rua oferecia-nos algo além de água
encanada e luz elétrica.
Os telejornais passaram a despejar violência sobre
o tapete da sala, aos pés de nossos sofás. Era
como se dispuséssemos de um eficiente sistema de
miséria encanada. Tão simples quanto virar uma torneira
ou acionar o interruptor, bastava apertar o botão
da TV. Embora violenta, a miséria ainda nos excluía.
Súbito, a miséria cansou de esmolar. Ela agora
não pede; exige. Ela já não suplica; toma.
A miséria não bate mais à nossa porta; invade.
Não estende a mão diante do vidro do carro; arranca
os relógios dos braços distraídos.
Acuada, a cidade passou de opressora a vítima
dos morros. No Brasil de hoje, a riqueza é refém da
miséria.
A constituição do perfil da miséria no Brasil está
diretamente relacionada com a crescente modernização
do país.
SOUZA, Josias de. “A vingança da miséria”. Folha de S. Paulo, São
Paulo, 31 out. 1994.Caderno Opinião, p.2. (Adaptado)

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