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sábado, 28 de maio de 2011

A Epidemia da Beleza.

Movidos pela vaidade, pelo menos 130 mil crianças e adolescentes submeteram-se, no ano passado, a operações plásticas.

Qual a extensão desse servilismo à estética? A situação é mais grave do que se imagina. Pesquisa feita pela MTV sobre o perfil dos jovens brasileiros de 15 a 30 anos de idade, divulgada na quinta-feira, revela uma epidemia de preocupação com a beleza física.

Em parceria com o Datafolha, a MTV perguntou aos entrevistados, por exemplo, se trocariam 25% de inteligência pela mesma proporção de beleza.

Resultado: 15% foram francos o suficiente para admitir a troca. Nem se preocuparam com o fato óbvio de que a beleza física passa rapidamente, mas a inteligência física.

Fiquei me perguntando se os jovens dispostos à troca já não teriam um QI não muito elevado. A julgar pela pesquisa, o problema não está no QI. Trata-se de um mal que afeta parte expressiva de uma geração das classes A, B e C.

O principal resultado desse perfil é ter detectado até que ponto vai a reverência exacerbada à beleza física. Convidados a definir os traços que melhor definem a atual geração, os entrevistados colocaram em primeiro lugar – e bem na frente – a vaidade. Depois, aparecem o consumismo, o individualismo e o comodismo.

Por que está ocorrendo essa “epidemia da beleza”? A resposta é óbvia – e nós, da mídia, somos em parte responsáveis por isso.

Há uma supervalorização da aparência. Seres anoréxicos e fúteis, quase inumanos, são apresentados como padrão de beleza e de sucesso. A mídia, por sua vez, não se limita a fotografá-los, mas freqüentemente busca suas opiniões sobre os mais diversos temas, de política a transgênicos.

Dissemina-se um culto à celebridade, que dá lugar ao surgimento de uma espécie de casta na sociedade, a casta dos “famosos”. E, para ser famoso, não é preciso necessariamente fazer algo de relevante – basta aparecer.

É o domínio da fugacidade. A internet, na sua extraordinária velocidade em tempo real, é a síntese tecnológica da voracidade do presente, do agora.

A pesquisa mostra, de um lado, o narcisismo entre jovens e, de outro, um ceticismo. São as duas faces de uma mesma moeda. Políticos são sempre ruins, independentemente dos partidos.

O jeito, portanto, é o salve-se-quem-puder. Se não existem utopias – e toda utopia é um pacto com o futuro – nem se acredita na política, sobra apenas a saída individual.

Até porque a mensagem predominante é a do consumismo como fonte de prazer e de realização.

As próprias relações pessoais acabam refletindo esse imediatismo individualista. “Ficar”significa namorar sem estabelecer nenhum laço emocional – laços emocionais implicam compromisso.

“O próprio ficar já está derivando seu sentido para algo mais superficial, onde sentimentos, ainda que momentâneos, já chegam a estar totalmente ausentes”. Servis ao ideal da beleza física, pais abrem mão da condição de adultos, como se quisessem prolongar a adolescência. Não querem ser pais de seus filhos, mas amigos. Não cobram, não dão limites, não exigem. O pai muito amigo é, porém, um candidato a futuro inimigo do filho. “Os filhos já evidenciam certo desconforto com a ausência da porção pai e o excesso do lado amigo”, observam os pesquisadores.

O culto à futilidade é não só um transtorno individual – em que a pessoa passa a viver apenas em função do superficial e do fugaz – mas também um transtorno coletivo.

Em comparação com o levantamento realizado em 1999, houve uma redução do número de jovens dispostos a realizar trabalhos comunitários.

Explicável: na lógica do narcisismo, o outro só serve de espelho. Será que essa onda vai diminuir? Talvez.

Registraram-se, nas conversas da fase qualitativa da pesquisa, sinais de esgotamento decorrentes dessa multiplicidade de estímulos fugazes, sem laços. Começa-se a perceber que tudo, intenso e imediato, resulta em nada.

P.S.* - Em meio a essa cultura da futilidade, tenho visto um movimento de resistência de jovens que, atentos ao que ocorre ao seu redor, estão querendo fazer a diferença.Tenho visto também escolas e educadores colocarem na prática escolar o estímulo à colaboração. Esse deveria ser o padrão de comportamento, não a exceção, numa comunidade civilizada. Podem me chamar de nostálgico, mas, se ser jovem é ficar obcecado pela beleza e viver em regime alimentar ou achar que se comunicar é ficar na frente de um computador, prefiro ser velho. Sou dos que acham que um dos bons prazeres da vida é ouvir, pessoalmente, sem tela nem terminais, conversa de gente falando das dores, delícias e encantamentos das experiências.



Gilberto Dimenstein, Folha de São Paulo, 08/05/2005

* Post-scriptum = escrito depois

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