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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel - 17.7.2010

15h00m

Coluna no GLOBO

Fantasma na festa

Por 87 dias o óleo vazou no fundo do mar do Golfo do México. Durante este tempo o mundo pensou seriamente no outro lado do produto: indispensável para a vida moderna, mas capaz de espalhar destruição, morte e ameaçar o próprio Planeta. A festa que o presidente Lula quis fazer tinha uma sombra. Exorcizar o fantasma é melhor do que fingir que ele não existe.



O presidente Lula preferiu atacar este jornal, esquecer fatos, confundir geografia, e apelar ao nacionalismo para tentar manter o mesmo ritmo da festa que havia programado para o dia em que pudesse sujar as mãos no petróleo do pré-sal. Mas o mundo do petróleo mudou nestes quase três meses em que vazaram milhões de barris destruindo vida marinha, estilo de vida de populações, aves, praias e certezas. As estimativas ainda estão imprecisas, mas podem ter vazado até cinco milhões de barris de petróleo; no Exxon Valdez foram 257 mil barris.



Mesmo se for confirmado o melhor cenário que é o de ter estancado definitivamente o vazamento da British Petroleum, os próximos anos serão consumidos na grande operação de faxina na região. O fantasma continuará entre nós, como até hoje há sequelas do vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara há dez anos.



Petróleo é ainda indispensável, mas o mundo caminha para um imposto sobre carbono para tentar empurrar empresas, consumidores e governos para um uso menos intensivo de fontes fósseis e, desta forma, reduzir as emissões dos gases de efeito estufa. É o que garantirá o futuro do Planeta. É bom que o Brasil tenha reservas, as encontre e seja capaz de extraí-las, mas ignorar o alerta dado por essa tragédia é insensatez.



— Este acidente é um marco da história da indústria mundial de petróleo e é fundamental não perder a oportunidade de aprender com os erros dos outros. Nós somos um dos países com maior produção off shore e por isso acho que boa regulação deveria ser pautada por três atributos: inteligência setorial, transparência e comunicação. Acho que a ANP deveria ser pró-ativa, estar todo o dia na mídia mostrando de que forma está acompanhando o acidente e se está ou não pensando em revisar os dispositivos regulares — disse o professor Helder Queiroz Pinto, do Grupo de Economia da Energia da UFRJ.



O prejuízo para a empresa é colossal, e ainda está longe de estar completamente contabilizado. A BP recebeu até agora 100 mil pedidos de indenização, já pagou US$ 201 milhões. Teve que instalar 35 escritórios ao longo do Golfo para receber as reclamações. A companhia foi obrigada a constituir um fundo de US$ 20 bilhões, mas outro de US$ 100 bilhões está sendo criado por determinação do governo. Esses fundos são para garantir os afetados, caso a empresa deixe de existir. O que é uma possibilidade.



O fim do vazamento não é o fim dos seus efeitos. “É como colocar um band-aid em um homem morto”. Foi o que disse o pescador Jeff Ussury numa entrevista ao “New York Times”. Pescadores da região são diretamente afetados e muitos podem ter perdido para sempre a chance de exercer sua atividade.



Diante de tão arrasadoras consequências para as pessoas, empresa, meio ambiente, vida marinha, economia, o melhor a fazer é levar tudo muito a sério. Para isso é que existe o princípio da precaução. Seria bom acreditar que nada disso jamais vai nos acontecer, porque, como diz o presidente: “190 milhões vão ajudar a Petrobras a tirar com carinho esse petróleo do fundo do mar.”



O mais racional a fazer é a empresa prestar informações objetivas sobre o que nos protege contra um risco semelhante, e a agência reguladora se comportar como uma agência reguladora e prestar as informações pertinentes. Mais do que isso, empresa e agência precisam rever processos, equipamentos, rotinas e normas de segurança. A extração de petróleo, no qual o presidente Lula pôs suas mãos esta semana, está longe de ser a prova de que o desafio está dominado. Os outros campos de pré-sal são muito mais profundos do que os do Espírito Santo e representam um desafio tecnológico muito maior.



Por causa do vazamento, a agência Moodys classificou como negativa a perspectiva para o setor de petróleo nos próximos 12 a 18 meses. Ela inclui nesse cenário não só as grandes companhias de petróleo de exploração em águas profundas, como também as menores que fazem exploração em terra. “O derramamento de petróleo no Golfo do México coloca enormes incertezas para companhias de exploração e produção de petróleo.” A agência acha também que os custos ficarão mais altos para as atividades das empresas, e as reservas do fundo do mar perderão valor. A Fitch acha que os bancos exigirão taxas maiores para financiamentos a empresas de petróleo.



O professor Celso Kazuyuki Morooka, do Centro de Estudos de Petróleo da Unicamp, explica que as dificuldades de operação a 1.700 metros de profundidade são semelhantes às encontradas pelos astronautas no espaço. Por isso, tudo foi tão lento no Golfo:



— Todos os procedimentos foram adotados no Golfo, mas o vazamento continuou. Agora a engenharia terá que apurar o que aconteceu e atualizar seus procedimentos de segurança.



É isso: princípio da precaução, reforço da segurança, revisão dos processos, desenvolvimento de novas tecnologias, prestação de contas à população, aos acionistas, aos investidores sobre a situação brasileira. Isso é o mais sensato. O insensato é achar que os outros são incompetentes e os nossos riscos são “assimiláveis”, como disse a ANP a esta coluna. Corre mais risco quem pensa que o risco não existe.

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